Carta ao Orelha
Orelha,
você não tinha casa,
mas tinha um bairro inteiro.
Não tinha tutor no papel,
mas tinha mãos que te alimentavam,
olhares que te reconheciam
e passos que desaceleravam quando te viam deitar ali,
no mesmo lugar de sempre.
Você ensinou, sem latir,
que pertencimento não depende de posse.
Que amor não precisa de coleira.
Que existir já é suficiente.
Você era comunitário,
mas foi tratado como descartável.
E isso diz muito mais sobre nós
do que sobre você.
Hoje, seu corpo não ocupa mais a calçada,
mas sua história ocupa algo maior:
a consciência de quem ainda sente.
Que a sua morte não seja só mais um caso.
Que o seu nome não vire estatística.
Que a sua ausência incomode.
Que doa.
Que mude algo.
Porque justiça pra você
é proteção pros próximos.
Descansa, Orelha.
Se houver algum lugar onde os bons repousam,
que seja no colo de quem sempre soube amar os animais
como irmãos.
Você foi visto.
Você foi amado.
E agora, você é lembrado.
O cãozinho Orelha, de Florianópolis, Santa Catarina, foi brutamente espancado por 4 jovens de classe alta
e acabou não resistindo aos ferimentos. Um crime hediondo praticado contra um animal indefeso, por
pessoas sem o menor sentimento. Esses é que são os verdadeiros animais.

