O jardim onde Jorge Amado permanece
Numa viagem rápida à Bahia, local de muita energia, ritmo e, sobretudo pelas pessoas amáveis que lá existem, a missão era apresentar à terra da Caetano, Gil, Caymmi e João Ubaldo, também terra da Jorge Amado, cuja pessoa foi deixada por último por ser o verdadeiro motivo desta crônica.
Jorge e Zélia moraram por muitos anos na Casa do Rio Vermelho, hoje transformada em museu. As histórias vividas e guardadas naquele espaço, histórias que parecem brotar das paredes, do chão e do jardim. Um privilégio.
Ao dedicar esta coluna à natureza, é nela que nos detemos. Após os dois lances de escada, logo na entrada, aparece uma jaqueira plantada por quase 60 anos por Jorge Amado. Era a primeira árvore do jardim, a fruta preferida de Jorge Amado. Até hoje, a jaqueira segue generosa. Estava carregada, firme, viva, produtiva.
Alguns passos adiante, uma pequena mangueira, plantada junto aos bancos de azulejos preferidos de Zélia e Jorge. Foi ali, a pedido dele, pois tinha horror a ideia de ser enterrado, que suas cinzas foram espalhadas. Um gesto final de pertencimento: Voltar à terra como presença.
O jardim da Casa do Rio Vermelho é uma das estrelas do lugar. Árvores frutíferas, sombras, caminhos, espaços de descanso e interação com os visitantes. Um jardim que acolhe a todos.
Nos livros de Jorge Amado, a natureza nunca é cenário. Ela é personagem: As plantas, o mar, o cacau, o dendê, os orixás, as ervas, os chás. Tudo pulsa, tudo age, tudo participa da vida humana.
Para Jorge Amado e Zélia, a natureza é cotidiana, é afeto, ancestralidade – não é algo a ser contemplado a distância, mas vivido, cuidado, compartilhado.
Talvez por isso, começar o ano relendo Jorge Amado, faz mais sentido. Seus livros nasceram em um tempo anterior à urgência climática, uma relação com a terra que hoje nos falta: Íntima, respeitosa, quase amorosa. Um tempo em que o mundo ainda parecia um jardim possível, e não um território em ruinas à espera de reparo.

